Das Reduções Jesuíticas à Mediação: o que as Missões Jesuítico-Guaranis nos ensinam sobre a mediação de conflitos

O início das reduções

 

Há 400 anos, ou seja, em 3 de maio de 1626, o padre jesuíta Roque González de Santa Cruz atravessou o rio Uruguai, na fronteira com a Argentina e chegou ao Rio Grande do Sul, dando início à primeira fase das Reduções Jesuíticas em território brasileiro, onde hoje está localizado o município de São Nicolau.

 

O Padre Roque González não era um estranho que chegava impondo regras. Ele falava guarani, conhecia os costumes daquele povo e trazia algo concreto em troca.

 

Os jesuítas trouxeram o cavalo, o gado, a escrita, o ferro, a música e novas plantas frutíferas. Os guaranis apresentaram o milho, a mandioca, o amendoim, a erva-mate, o conhecimento da agricultura e do território e um modo de viver em comunidade. Duas culturas diferentes trocaram saberes e, juntas, construíram um modelo de organização social estudado até hoje. Algumas reduções tinham de 2.000 a 12 mil habitantes, produção agrícola diversificada, educação, arquitetura, música e arte.

 

Não estou romantizando o que aconteceu

 

As reduções implicaram uma mudança profunda no modo de vida guarani. A mobilidade foi restringida. A espiritualidade original deu espaço ao catolicismo por meio da catequização dos indígenas. A identidade cultural passou por grandes transformações. Muitos guaranis recusaram e fugiram para as florestas ou para o outro lado do rio, no caso, a Argentina.

 

Eloir de Oliveira, liderança guarani, em um programa da série “400 anos das Missões”, da Rádio Gaúcha, é claro: para o seu povo, o período das reduções não é celebração, mas sim de reflexão. Pelos motivos acima expostos, bem como outros.

 

Reconhecer isso é essencial. Ainda mais quando uma das partes tem sua identidade apagada como condição do “acordo”.

 

Mas há uma distinção fundamental que precisa ser feita: os guaranis nas reduções não eram “escravizados”. Isso se opõe ao que faziam os bandeirantes paulistas, que invadiam florestas e aldeias para capturar indígenas para o trabalho na agricultura.

 

As reduções ofereciam outro caminho: comunidade, proteção, aprendizado, trabalho coletivo com retorno para todos. Aliás, nas reduções viviam até 3 padres jesuítas, os demais habitantes eram guaranis. Era um modelo com falhas e contradições, mas era construído, em grande parte, com participação e consentimento. Tanto que, quando os bandeirantes avançaram, foram os próprios guaranis que pegaram em armas e os derrotaram, em 1641, na batalha de Mbororé.

 

Quando os envolvidos no conflito são excluídos da decisão

 

O contraste mais instigante não está na fundação das missões, mas no seu fim.

 

Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri e decidiram trocar territórios como se fosse um jogo. E tudo o que foi construído e produzido até então, teve que ser abandonado. E, assim, os jesuítas e guaranis tiveram que atravessar o rio Uruguai e recomeçar.

 

Ninguém os consultou. Ninguém perguntou. A decisão veio imposta por terceiros. O resultado foi a Guerra Guaranítica, a Batalha de Caiboaté, a derrota, o deslocamento forçado e, anos depois, o abandono completo. Todos saíram perdendo: os guaranis perderam suas terras; os jesuítas perderam décadas de trabalho.

 

Este caso exemplifica o que acontece quando o conflito é resolvido sem os envolvidos no conflito: a solução imposta não se sustenta com o passar do tempo, gera ressentimento e produz uma escalada da violência.

 

A mediação como caminho

 

A mediação parte de um princípio oposto ao do Tratado de Madri: as pessoas afetadas por um conflito têm o direito e a capacidade de participar da construção de um entendimento, de um possível acordo, seja ele qual for.

 

Não é um processo simples e fácil. Exige escuta ativa, disposição para compreender o outro lado, criatividade para encontrar alternativas que atendam a interesses diferentes. E quando se torna possível, produz entendimentos que os mediados respeitam porque ajudaram a construir. Não porque foram obrigados.

 

O diálogo constrói soluções. A imposição costuma gerar novos conflitos.

 

Conclusão: respeitar o outro é o começo

 

As ruínas de São Miguel das Missões carregam duas histórias ao mesmo tempo. Uma é aquela em que o diálogo permitiu que culturas diferentes construíssem juntas algo que nenhuma poderia construir sozinha. A outra é a de uma ruptura quando decisões foram tomadas sem a presença de pessoas que mais seriam afetadas.

 

A mediação nos faz refletir sobre qual das duas histórias queremos repetir.

 

E há outra lição, que vai além das técnicas e dos procedimentos: o respeito. Respeitar cada pessoa. Respeitar cada povo. Respeitar a história, a cultura, os valores, as crenças e os modos de viver que não são os nossos.

 

O que foi feito com os guaranis, como a supressão de sua espiritualidade, a destruição de sua mobilidade, o abandono após a expulsão dos jesuítas, a negação da sua ancestralidade, é contrário a isso. É o que acontece quando a imposição substitui a escuta.

 

Mediar conflitos é, no fundo, uma escolha ética: a escolha de acreditar que o outro tem algo a dizer, que a solução que inclui a todos é mais justa do que a solução que exclui. É acreditar que nenhuma decisão importante deveria ser tomada sem a participação de todos os envolvidos.