A inteligência artificial está redefinindo a mediação: você está preparado para essa mudança ou será substituído?

A inteligência artificial, quando surgiu, era vista como um recurso de apoio para tarefas repetitivas: organizar informações, acelerar processos etc. Essa fase, porém, já ficou para trás. A IA deixou de ser apenas um instrumento de produtividade que organiza arquivos e responde perguntas básicas. A cada dia, ela avança sobre áreas que acreditávamos ser exclusivamente humanas, como ouvi em um programa de rádio.

 

Na mediação de conflitos, essa transformação já começou. O que antes se limitava a resumir documentos ou organizar informações hoje inclui a identificação de padrões comportamentais, a avaliação de aspectos emocionais, a sugestão de estratégias e até a apresentação de propostas para superar os conflitos que as partes enfrentam, tudo muito semelhante ao que um ser humano faria.

 

Com a evolução da tecnologia, surge então uma pergunta inevitável: essas capacidades continuarão sendo exclusivas dos seres humanos? É a famosa pergunta de um milhão de dólares, e a resposta é cada vez mais difícil, já que os avanços acontecem em ritmo acelerado.

 

Por isso, um dos maiores riscos para mediadores e advogados talvez não seja a tecnologia em si, mas a incapacidade de utilizá-la com eficiência e acabar sendo por ela ultrapassado.

 

A IA já está assumindo parte da capacidade de analisar, raciocinar e decidir. Escritórios de advocacia utilizam inteligência artificial para tarefas que antes eram exclusivas de estagiários. Isso não significa que a mediação humana esteja com os dias contados, significa, porém, que ignorar essa transformação pode ser um erro estratégico.

 

A questão central não é saber se a inteligência artificial substituirá os mediadores, mas como os profissionais vão se adaptar a essa nova realidade, na qual algumas atividades deixaram de ser exclusividade humana.

 

E, como acontece em toda mudança, quem compreende o que está acontecendo e aprende a trabalhar com essa nova tecnologia terá mais condições de prosperar e de não ser substituído.

 

Vale lembrar: a confiança construída ao longo do tempo, a capacidade de sentir e compreender o que o outro está vivendo, aquela conversa num café… a máquina não conseguirá fazer.

 

O documentário da pesquisadora Hannah Fry mostrou exatamente isso. A barreira que julgávamos intransponível está cedendo, não porque a IA tenha sentimentos ou empatia, mas porque as pessoas estão aceitando o que ela oferece.

 

Nesse sentido, existem ações que o mediador pode adotar para identificar com clareza onde está vulnerável:

 

→ peça à IA que analise o que você planeja fazer e compare o resultado com o que você escreveu.

→ em uma mediação travada, descreva os fatos, sem identificar os mediandos, e peça que a IA apresente opções e alternativas. Use-as como ponto de partida, não como resposta final.

→ se a sessão travar por questões emocionais, peça à IA uma perspectiva que você ainda não considerou, para ampliar sua análise.

→ acompanhe as inovações na área da inteligência artificial.

→ se precisar fazer uma fala ou encaminhar uma comunicação difícil, peça à IA que revise e ajuste o tom, tornando-o mais adequado à situação.

 

Acredito que o futuro da mediação continuará sendo, essencialmente, humano. A grande diferença é que ela será construída em parceria com a IA que evolui a cada dia. E essa parceria não anula o mediador, ela potencializa a atuação, provando que o futuro da mediação de conflitos depende da precisão da tecnologia, mas também do acolhimento, da empatia e da conexão que só o ser humano é capaz de oferecer.

 

@carloseduardochiapetta